No Dia da Internet Mais Segura, no seminário “Internet Segura: Metaverso vs Realidade”, o painel “Novas tecnologias sociais. E agora?” juntou vários psicólogos e fisiologistas para debaterem os desafios dos novos contextos digitais, o papel da psicologia enquanto ferramenta de cibersegurança, os riscos associados às tecnologias sociais, entre outras questões.
Perante a diversidades dos ambientes de metaverso, existe, também, uma diversidade de oportunidades, particularmente para a educação. “As possibilidades que o metaverso tem para a educação são imensas, a nível da realidade aumentada, permitindo ambientes de aprendizagem que dificilmente seriam possíveis de realizar sem recursos digitais”, explicou Cristina Ponte, professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova.
Os ambientes de metaverso intensificara-me nos últimos anos, “no momento em que a captação de dados se tornou um negócio poderosíssimo”, destacou Cristina Ponte, acrescentando que esta realidade exige, de cada utilizador, a literacia e o conhecimento necessários para saber como funciona a Internet, o metaverso e qual a lógica comercial a que está ligado o metaverso.
Acompanhando esta evolução, o projeto europeu Better Internet for Kids atualiza-se, como forma de dar resposta às necessidades atuais. A partir da ideia de que vivemos novos desafios, novos ambientes, nos quais é necessário promover a segurança, o projeto europeu pretende, nos próximos anos, promover ambientes seguros que envolvem os compromissos das próprias empresas e plataformas, assim como uma regulação. A docente explica que este desenvolvimento “envolve a capacitação dos jovens e das famílias e envolve que estas experiências que os jovens protagonizam tenham de ser ouvidas e eles tenham de ter uma voz ativa”.
Tendo por base esta premissa, Juliana Cunha, psicóloga e diretora de projetos especiais com foco em empoderamento e segurança de crianças, adolescentes, jovens e mulheres na SaferNet Brasil, esclareceu que “quanto mais ouvimos esta geração, melhor conseguimos pensar em ações que levem em consideração o bem-estar de crianças e adolescentes”. Juliana Cunha explica que “a participação e o engajamento de crianças e adolescentes é muito importante para conseguir projetar um cenário de segurança e de bem-estar, especialmente para essa população de jovens que acede e adota mais intensa e rapidamente essas novidades que surgem”.
A psicóloga e diretora de projetos especiais da SaferNet Brasil reforçou a ideia de que o metaverso, particularmente para a geração mais nova, dissolve a noção de oposição com realidade, apagando ainda mais a fronteira entre o que é real e o que não é. As tecnologias imersivas, para as crianças e adolescentes, podem ser viciantes e fica mais difícil o controlo sobre o tempo de exposição. “Já observamos isso nos smartphones, mas vamos ter um desafio no âmbito da saúde e da saúde mental”, explicou.
Raul Melo, psicólogo especialista em saúde, educação e a intervenção comunitária, abordou a temática dos desafios e riscos associados às tecnologias sociais, salientando que "as novas tecnologias, com todas as mais-valias que trazem e o seu lado fantástico e estimulante, trazem, também, o reverso da medalha que é: tudo o que não atinge o mesmo grau de estimulação que elas proporcionam, invariavelmente, gera um estado de aborrecimento ou descontentamento”.
Neste sentido, trabalhar riscos passa por “voltar a pôr o relacional ombro a ombro ou pelo menos a ser integrado na utilização da tecnologia”. Raul Melo desenvolve esta necessidade, explicando que a intervenção deve ser feita de forma muito precoce, já em contexto pré-escolar, onde, à partida, este tipo de temas começam a ser introduzidos. O psicólogo reforçou, também, que não são as crianças as pessoas capazes de estabelecer alguma regulação na utilização destes recursos, mas sim os adultos. “Tem de ser a família a ter consciência disso e de que é também modelo. O adulto deve ser coerente com essas regras que está a implementar”, concluiu.
“A nível das escolas, é fundamental trabalhar a utilização e a consciencialização dos riscos relativamente aos recursos que criamos. Nós somos uma sociedade que primeiro cria o recurso e depois vai pensar as implicações negativas que esse recurso tem, e muitas vezes fá-lo tardiamente”, disse Raul Melo. Neste sentido, intervir na prevenção desses riscos passa por programas que proporcionem o desenvolvimento de competências e a consciencialização de como é que estes recursos interferem com várias áreas, nomeadamente o impacto ao nível das questões da saúde. “Não basta só falar com as crianças, a intervenção que é pontual não muda. A intervenção preventiva tem de ser continuada, tem de ser multisessões. Temos de dedicar vários momentos consecutivos ao mesmo grupo para que uma atitude ou uma estratégia seja adotada”, explicou Raul Melo.
Ao abordar o papel da psicologia enquanto ferramenta de cibersegurança, Miguel Oliveira, psicólogo membro da Direção Nacional da Ordem dos Psicólogos Portugueses e coordenador da equipa de cibersegurança da Ordem dos Psicólogos, foi ao encontro da ideia da necessidade de intervenção ainda nos primeiros anos de vida, referindo que para conseguir que a cibersegurança seja levada mais a sério, é fundamental que exista uma intervenção a nível do jardim de infância – “por exemplo, na questão ambiental, os grandes mobilizadores foram as crianças”, lembrou Miguel Oliveira.
Miguel Oliveira explicou que os hackers, hoje em dia, focam-se em hackear a pessoa e não o device. “Esta mudança de paradigma veio alertar-nos para algo que nós, enquanto ciência, gostaríamos de contribuir: o humano como elo mais fraco nesta cadeia de cibersegurança”. Neste sentido, a psicologia pode ser uma mais-valia ao trabalhar as dimensões comportamentais, com foco nos processos de tomada de decisão.
“A consciencialização nesta altura é dos aspetos mais importantes que podemos promover no que toca à cibersegurança, mas no final do dia, isto tem de ir dar a processos de tomada de decisão - as pessoas têm de desligar computadores, terem passwords mais fortes”, esclareceu Miguel Oliveira, ao explicar que, atualmente, os hackers são muito bons a nível das competências sociais e que muitas vezes eles não roubam, só pedem porque são bons a nível da manipulação. Esta forma de atuação reforça a necessidade de instruir e intervir juntos das crianças.
Pode ver as intervenções completas no streaming do Seminário.